Quando Lemmy apontou o dedo ao rock americano de 1983
O universo do rock guarda opiniões fortes e polémicas célebres, sendo que raras figuras se equiparam à frontalidade de Lemmy Kilmister. O inconfundível líder dos Motörhead deixou, ao longo da sua vida, várias reflexões mordazes sobre a indústria musical, a cultura pop e o rumo que o próprio género seguiu ao longo das décadas. Numa das suas análises mais peculiares, o músico britânico debruçou-se sobre um tema lançado em solo norte-americano no ano de 1983, conseguindo resumir aquilo que, na sua perspetiva, estava a falhar no rock dos Estados Unidos da altura. Para o autor de hinos atemporais da vertente mais pesada e crua da música, a faixa em questão sofria de um mal muito específico, apesar de contar com evidentes qualidades técnicas na sua execução instrumental e vocal.
Lemmy não era homem de meias-palavras quando avaliava o trabalho de outros artistas ou o panorama discográfico global. No caso concreto desta canção norte-americana do início dos anos oitenta, o falecido baixista e vocalista reconheceu publicamente o valor técnico da gravação, elogiando a afinação vocal e a precisão com que os instrumentos foram tocados em estúdio. Contudo, o elogio vinha acompanhado de uma crítica demolidora quanto à essência da obra. Para o líder dos Motörhead, a música carecia de alma genuína, comparando a experiência de a escutar a um encontro desconfortável com um político. A analogia pretendia ilustrar a sensação de artificialidade, frieza e calculado tecnicismo que, na visão do músico, começava a invadir a produção discográfica norte-americana, distanciando-se do espírito rebelde e visceral que sempre defendeu para o rock and roll.
Para os seguidores do lendário trio britânico, este tipo de tirada reflete perfeitamente a postura intransigente que Lemmy manteve até ao final dos seus dias. Enquanto o mercado procurava fórmulas polidas e produções cada vez mais higienizadas para conquistar as tabelas de vendas e as rádios comerciais, os Motörhead mantinham-se fiéis a uma sonoridade dura, rápida e sem concessões. A discussão em torno desta faixa de 1983 serve assim para ilustrar o fosso cultural que muitas vezes separava a ética do rock britânico da estética que grassava do outro lado do Atlântico. A rejeição de Lemmy por fórmulas musicais que pareciam mais focadas na diplomacia de imagem do que na urgência artística continua a ecoar como um testemunho da sua integridade criativa, recordando aos fãs que a verdadeira energia do rock vive muito mais da atitude crua do que da perfeição técnica de laboratório.
Fonte: Whiplash