Genesis e o improvável parentesco com o punk que ninguém previu
À partida, dificilmente haveria dois universos musicais mais afastados do que o do Genesis e o do movimento punk. De um lado, uma banda associada a composições extensas, a álbuns conceptuais ambiciosos e a elaboradas encenações de palco que roçavam o teatral. Do outro, uma corrente que fez da urgência, da crueza e da recusa dos excessos a sua principal bandeira. E, no entanto, foi precisamente do seio dos progressivos britânicos que surgiu a ideia de que um dos seus discos terá, de forma involuntária, antecipado aquilo que viria a explodir no final dos anos 70.
O paradoxo é evidente. Poucos nomes representavam tão bem o rock progressivo, um estilo que os punks tantas vezes apontaram como símbolo de tudo aquilo que pretendiam derrubar. As faixas longas, os conceitos rebuscados e as fantasias em cima do palco pareciam colocar o Genesis nos antípodas de qualquer aproximação ao espírito directo e contestatário que definia a nova geração.
Apesar dessa distância aparente, a banda considera que um dos seus trabalhos acabou por conter, quase por acidente, elementos que se aproximavam do que o punk viria a defender. A ideia sublinha algo curioso sobre a história do rock: por vezes, as fronteiras entre géneros supostamente irreconciliáveis são mais ténues do que se imagina, e movimentos que se apresentam como opostos podem partilhar impulsos comuns.
Esta leitura ganha ainda mais interesse quando recordamos o contexto. O Genesis construiu a sua reputação num terreno marcado pela sofisticação e pela ambição artística, o oposto da simplicidade reivindicada pelos punks. Que os próprios músicos reconheçam ter, sem intenção, tocado nalgum ponto de contacto com essa estética é um sinal de como a criatividade nem sempre segue caminhos lineares nem obedece às etiquetas com que a crítica classifica as bandas.
A reflexão convida também a repensar a forma como olhamos para o rock progressivo. Frequentemente colocado no banco dos réus pela vaga punk, o género revelou-se afinal capaz de gerar momentos que, à sua maneira, apontavam para o futuro. O caso do Genesis serve de exemplo de que a história da música é feita de cruzamentos inesperados, onde influências circulam em direcções que ninguém planeou.
Mais do que uma curiosidade, esta ideia funciona como lembrete de que rótulos como progressivo ou punk servem sobretudo para organizar o discurso, mas raramente conseguem conter toda a complexidade daquilo que os artistas produzem. E, no caso destes britânicos, a possibilidade de terem antecipado o punk sem sequer o pretenderem torna a sua discografia ainda mais fascinante de revisitar.
Fonte: Whiplash.net